sexta-feira, 14 de abril de 2017

Pés lavados


Autor Thiago D. Trindade


No episódio da lavação dos pés (João, 13: 1-11), percebemos mais uma vez o brilhantismo do Mestre Jesus. Em um gesto de Humildade, o Sublime Professor, se ajoelha diante de seus discípulos e começa a lavar-lhes os pés.

Ao nos doarmos verdadeiramente a outra pessoa em um gesto fraterno, atraímos para nós energias vitalizantes que nos impulsionam no Bem. A inspiração se faz presente através da força mental empregada na Caridade.

Jesus, Mestre dos Mestres, se fez pequeno na Terra para demonstrar sua incalculável grandeza espiritual.

Deixou, inclusive, um plano de metas para sermos, um dia, iguais a Ele.

Servir.

Todo serviço deve ser acompanhado por Humildade e Determinação.

Humildade por entender que somos minúsculos ante a magnificência da Criação.

Determinação para enfrentarmos as dificuldades que se encontram em nosso caminho na direção do Pai.

Servir é o propósito de todo habitante da Terra.

Servir é um ato de Amor.

Pedro, áspero e exagerado, de início se recusou a permitir que Jesus lhe lavasse os pés (João, 13:8). O que Pedro demonstrava era soberba mal disfarçada de humildade.

Como o líder poderia limpar-lhe os pés?!

Não.

Pedro é quem deveria lavar os pés de Jesus e assim brilhar aos olhos dos outros. Seria uma chance de se sobressair aos demais, podemos concluir...

O Cristo, porém, o advertiu e o pescador cedeu, muito certamente contrariado. De repente, tomado pelo entusiasmo, que corriqueiramente o assaltava, Pedro pediu ao Mestre que lhe lavasse a cabeça e as mãos.

Servir, sim. Mas com bom senso.

De que serviria lavar a cabeça e as mãos, se estes já estavam limpos? Não havia lição ali a ser dada.

A lição estava nos pés empoeirados sobre a carne dura do homem. A poeira representava as imperfeições morais que Pedro trazia.

Ao abaixar-se ante o pupilo, Jesus se fez pequeno. O cair delicado da água fresca deram ao pescador conforto físico e mental. Certamente, o Mestre doou ao discípulo energias revigorantes que serviriam ainda para retirar os cascões de negatividade que Pedro carregava.

Um gesto de pura afeição.

Um gesto de fraternidade.

Lavando a matéria, Jesus lavou a alma do embrutecido Pedro.

Após essa aula de Humildade, onde o Mestre lavou a cada um dos pupilos, e estes fizeram o mesmo uns nos outros, evidenciando mais uma vez a grande eficácia pedagógica da atividade em grupo.

Ainda assim, um deles permanecia com o coração sombrio.

Judas Iscariotes.

Seu coração não estava aberto para receber Amor. Em seu egoísmo, fechara-se e a isso não havia nada que o doce Jesus poderia fazer, pois o rebelde usava seu Livre Arbítrio para assim proceder.

O exemplo da lavação dos pés é uma convocação ao entendimento de que a Humildade, nestes dias velozes, nunca foi tão negligenciada. Na cultura do “deus Ego”, vemos desvalidos materiais e, sobretudo, os desvalidos morais, com os pés recobertos de lama e chagas pulsantes.

Quantos fariam tal como Madre Tereza de Calcutá, que passava seus dias e noites entre os miseráveis de todos os matizes, cuidando de suas mil feridas da carne e da alma? Quem, senão essa Verdadeira Cristã seria capaz de beijar um leproso retorcido e, embevecida, anunciar que aquela pessoa era o Cristo em resplandecente luz?

Almas verdadeiramente abnegadas se prostram ante os mendigos da alma e ungem seus pés com lágrimas de Amor.
Beijam suas faces macilentas de rancor.
Abraçam seus corpos deformados pelas dores morais.

Servem!

Tão apenas servem!

Jesus sabia que Judas iria traí-lo. Mas seu gesto de Amor para com ele não foi menor do que para com os outros. Inclusive, foi no momento em que o traidor saía para lançar o golpe que levaria o Mestre ao Calvário, que Jesus lançou o seguinte Mandamento, conforme lemos em João (14:34 e 35):
“Que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros.”
“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes Amor uns aos outros.”

Jesus nos ensinou como lavar a alma daqueles que sofrem.

Os discípulos fizeram isso.

Outros apóstolos, como Paulo de Tarso, Francisco de Assis e Eurípedes Barsanulfo, fizeram isso.

Madre Tereza de Calcutá fez isso.

Ainda hoje, eles lavam os pés dos sofredores em cada metro quadrado desse mundo.

E você, porque não lava a alma de alguém hoje?







segunda-feira, 10 de abril de 2017

O exemplo de Maria


Autor Thiago D. Trindade

Talvez, dentre as figuras bíblicas, a pessoa que mais tenha sofrido tenha sido Maria. Não que ela tenha sofrido espancamentos físicos, nem privações quaisquer de ordem material. Maria, porém, como toda mãe, amava imensamente seu filho, Jesus. Desde o nascimento daquele que viria a ser o Cristo de Deus, em meio à extrema pobreza da Terra, entre os simples animais e humildes pastores, Maria sabia que seu filho tinha uma missão especial.

Certamente ela não fazia idéia de como iria se concluir a Missão de seu gentil filho. Intraduzível fora o suplício dessa mãe ao ver a criança que gerara na fuga e que vira crescer no exílio ser traído, abandonado e levado ao mais terrível flagelo que se conhecia até então. Por estas razões, Maria tinha tudo para odiar: os antigos companheiros de Jesus, que o haviam abandonado; os homens do Império que sabiam da inocência Dele e o condenaram; os invejosos do Sinédrio. Até mesmo Deus poderia ter sido alvo do rancor daquela mulher, uma vez que ela poderia ter considerado, em seu desespero, que o Criador havia abandonado o Messias.

Mas não.

Maria fora – e é – a mãe de Jesus, mas também fora sua pupila e no momento excruciante da Verdade interior dessa humilde mãe, ela acabou por vencer as amarras de escuridão que tinha dentro de si.

Maria não permitiu que a escuridão a tomasse e transformou-se em luz. Sigamos, pois, seu exemplo e enfrentemos as dificuldades com Fé e certos que nada é em vão. 


Falando sobre o Tempo


Autor Thiago D. Trindade



Iremos refletir um pouco sobre o tempo. Não iremos, por enquanto, nos referir sobre as condições climáticas, mas si sobre o que fizemos, fazemos e faremos. Nesse momento, iremos avaliar nossas existências.

É muito comum ouvirmos e dizermos: “Os tempos estão chegados!”

Mas que tempo é esse?! E onde estamos chegando?

O tempo é referência da mudança, da transformação. E estamos chegando ao limiar de uma nova Era. A Era da regeneração onde o tempo do Homem Integral, ou seja, do Homem Novo irá se reunir na face da Terra, amealhando condições para contemplar melhor a face do Cristo redivivo.

Ocorre que somos nós quem marcamos o tempo. Nós definimos, de fato, a chegada do mundo de Regeneração. Não basta que nós falemos do Cristo. Temos que vivenciar os Ensinamentos do Cristo. Por alguma razão, infelizmente, abraçamos o comodismo, que é um dos nomes do egoísmo.

Em Tiago, o apóstolo, lemos: “Eia agora, vós que dizeis...amanhã...”(4:13).

O que discípulo de Jesus queria dizer é justamente isso: “Não deixe para amanhã o que se pode fazer hoje.”

E o que devemos fazer hoje?

Perdoar, auxiliar, ouvir, não julgar, ter tolerância, ter paciência, alimentar o corpo e o Espírito de alguém.

DEVEMOS AMAR.

Os tempos estão chegados e o que fazemos? Responda apenas a si mesmo.
Muitos irmãos desencarnados nos trazem mensagens de amor, sabedoria, de alento, mas também nos falam: “Como eu perdi TEMPO! Fui egoísta, orgulhoso, descuidado, joguei a vida fora!”

Na verdade, sabemos que não jogou a vida fora, mas atrasou a si mesmo na estrada do progresso, ao comprometer sua reencarnação.

Porém, esses irmãos uma vez despertos, arregaçam as mangas e procuram estudar e trabalhar para sua própria edificação, e, por conseqüência atuam para desenvolvimento da Humanidade. Um lindo exemplo é que nos traz o amigo Espiritual André Luiz, em sua saga de crescimento moral na série “A Vida no mundo Espiritual”, mais popularmente chamada de Coleção André Luiz.

Bem, algum desavisado poderia considerar: “Ora, se nós sempre temos segundas chances, quando eu desencarnar, irei trabalhar.”

Isso é o tal “empurrar com a barriga”. Mas é interessante lembrar que somos estudantes da Verdade de Jesus, que nos confere duas coisas:

RESPONSABILIDADE E AUTORIDADE

Responsabilidade em assumir a posição de buscar a evolução através da prática do perdão e da caridade, em suma, a prática do Amor para crescimento espiritual.

A autoridade está no servidor do Cristo, em qualquer nível que esteja, é evidenciada pelo distintivo da Fé, que o leva a caminhos escuros e pedregosos, dissipando a escuridão da ignorância e usando a Razão e a Paciência em instruir a quem ainda está mais atas na estrada do Progresso. A autoridade do Servidor do Cristo é a base da postura coerente com os Ensinamentos: Amar a Deus e ao Próximo.

E o Tempo, tema central desta reflexão, permeia a Responsabilidade e a Autoridade. Usemos o Tempo como nosso aliado, entendendo que nada é por acaso e as dificuldades que encontramos ao longo da vida nos são necessárias para crescermos.

Ignorar o Tempo é sofrer, pois quando quisermos ser amigos dele, poderá ser tarde demais e provavelmente irá dizer: “PERDI TEMPO!”

Aproveitemos os momentos de alegria, claro, mas saibamos encarar com resignação os momentos de dor, certos de que são passageiros. Afinal, como disse um sábio indiano há cerca de 2500 anos atrás: “Tudo será transitório neste mundo até que reine a definitiva luz”.

Reflitamos mais sobre como aproveitar nosso Tempo orando mais, vigiando mais, estudando mais e servindo mais. Devemos, com Cristo, apertar o passo na busca pelo Homem Novo, que é despojado da preguiça egoísta que nos prende a viciações mentais.

Nós somos os trabalhadores da Última Hora. O campo de trabalho está aí. Devemos arar agora nossos corações com Amor para florescer luz em nosso Espírito.

Amar é o único Caminho.




quarta-feira, 5 de abril de 2017

Lema de Vida



Autor Thiago D. Trindade





É comum ouvirmos de pessoas que tem por lema de vida a canção do famoso intérprete de samba, intitulada “Deixa a Vida me levar”, acreditando estarem praticando uma verdade absoluta, e, assumindo um eventual destino, inalterável.

É um grande equívoco motivado pela preguiça e falta de reflexão, haja vista, que o próprio artista que canta essa música em todos os seus shows muito trabalha, seja viajando ou administrando seus múltiplos negócios. A ilusão do “deixa a vida me levar” só garante um destino certo: o da perda de tempo e a sensação indelével do fracasso voluntário.

Como é grande a quantidade de irmãos desencarnados que dizem: “Como eu perdi tempo!” atrasando assim a própria evolução. O que devemos fazer? Deixar de ouvir a tal música?

Não!

Devemos é arregaçar as mangas e encarar a Vida de frente, pois ela está aí para nos fazer crescer. Devemos, sim, é levar a Vida melhor maneira possível, evitando deixar as coisas de lado. Sem atrasos, pois o tempo urge!


A Transição Planetária está aí e é necessário auxiliar o Cristo melhorando a nós mesmos.




sábado, 25 de março de 2017

Uma visão sobre paternidade



 Autor Thiago D. Trindade


O pai, nos dias de hoje, é uma figura muito questionada, por mais incrível que possa parecer. Antigamente, a figura do pai era a do senhor absoluto do lar, um tirano, cuja figura distante e austera que mais intimidava do que inspirava respeito e confiança. Nosso bom amigo André Luiz, na obra “Nosso Lar” (psicografia de F.C. Xavier, editora FEB, 1997, 46° edição, 281 páginas) admitiu ter sido um pai assim.

Nos últimos anos, porém, cultivou-se a imagem do pai-irmão do próprio filho. Ao termo pai-irmão, não nos referimos à consideração de todos sermos filhos de Deus, logo, irmão. Nossa referência é o caráter hierárquico estabelecido pela maturidade e experiência. A figura do pai-irmão tem sido muito valorizada pelas mídias, onde o genitor e prole chegam a abolir os termos “pai e filho”, numa ruptura de estrutura familiar. Como resultado, vemos homens, mulheres e crianças sem o menor respeito aos membros da própria família e a terceiros.

O terceiro tipo de pai é o chamado pai-ausente, muito comum pelo mundo à fora. A figura do pai-ausente não pode ser somente compreendida como a ausência física do genitor. Existem pais que residem com seus filhos, mas por várias razões superficiais, são alheios ao pequeno universo em construção que sua criança é.

A Doutrina Espírita, o Consolador Prometido, orienta a respeito da responsabilidade da figura do pai. A respeito do pai e da mãe, na questão 208 do Livro dos Espíritos, aprendemos que os pais tem a tarefa de desenvolver os filhos pela Educação. Os pais são responsáveis pela educação moral e intelectual de sua prole. E por que “moral e intelectual”? É a evolução moral que nos aproxima da Perfeição. A intelectualidade nos mostra novos horizontes.

Para ilustrar, temos Chico Xavier, de pouca instrução intelectual – pouco estudo formal –porém de maciço teor moral, e, do outro lado Josef Mengele, médico nazista, de profundo estofo intelectual, mas de moralidade quase nula.

Na questão 582 do mesmo livro, observamos a imensa responsabilidade e do compromisso do pai e da mãe em criar condições a um Espírito se desenvolver moralmente. Avalia-se, nas questões subsequentes, a extensão das consequências para eventuais fracassos.

No Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo 14, Santo Agostinho afirma categoricamente que são os pais, os responsáveis pela condução dos filhos ao caminho reto. Ratifica, o ilustre mentor, que a educação verdadeira é obtida pela exemplificação.

Nessas duas obras, o Livro do Espíritos e o Evangelho Segundo o Espiritismo, vemos que o fracasso dos pais em orientar os filhos resulta em pesados débitos. No caso de nosso amigo André Luiz, que há décadas trabalha incansavelmente no Bem, ainda há de resgatar sua dívida contraída por conta de sua tirania doméstica de sua encarnação pretérita. É a Lei da Ação e reação.

Na magistral obra “Memórias de um Suicida” (autor espiritual Camilo Castelo Branco, psicografia de Yvonne do Amaral Pereira, editora FEB, 1998, 20° edição, 568 páginas), conhecemos o espírito Jerônimo, que fora comerciante português. Um pai ausente e um homem desonesto. Assoberbado por dívidas, optou pelo suicídio – tema este para outra reflexão. Jerônimo permaneceu anos no Vale dos Suicidas até ser resgatado pela Legião dos Servos de Maria. Espírito rebelde, o antigo comerciante, insiste em rever a família e, ao reencontrá-la, quase enlouqueceu. A esposa, prostituída, explorava a própria filha caçula, igualmente lançada ao meretrício. Esta jovem, a jóia que rebrilhava aos olhos do homem, então encarnado. O filho varão, jazia preso em uma cela desumana. Confrontado com a dura realidade, o fracasso de sua missão como pai, Jerônimo acabou sendo levado para recuperar-se em outro setor do Hospital Maria de Nazaré. Fracassara, o pobre espírito, como indivíduo e como integrante da base de um grupo. Pelos relatos obtidos na obra, Jerônimo veio a reencarnar anos depois, podendo ser qualquer um de nós.

Em todos os casos apresentados, os filhos resultam dolorosamente em seres incapazes de se ajustarem, compreendendo a si mesmo ou ao próximo. Os jornais, aliás, estão recheados de crimes que tem origem na ruína familiar.

A falta de Deus no lar.

A falta de um pai para trazer Deus, junto com a mãe, ao lar!

O pai, como nos ensinam os Bons Espíritos, é uma figura fundamental na Evolução Humana e deve reconhecer em si a responsabilidade que ele próprio pediu à Sabedoria Divina. Saber que sua postura de tutor, e porque não considerar-se também modesto aprendiz de seu filho transitório, deve ser firme, serena, racional e doce, como Jesus nos ensinou a ser. Ser um companheiro de seu filho sem ir contra a estrutura familiar que nossa sociedade enferma está nos impondo. O pai deve reconhecer suas imperfeições e se esforçar em vencê-las, como está claro no capítulo 17 Evangelho Segundo o Espiritismo, “Sejam Perfeitos”.

Ser pai é uma excelente prova de formação moral.

Ser pai significa ser um exemplo de Humildade, Paciência, Perseverança, Resignação e Fé.

Ser pai significa amar muito além das convenções da consanguinidade e da sociedade transitórias.

O amor do pai é o amor sublime que não vê barreiras para brilhar e afastar a escuridão da ignorância.

O maior exemplo de pai, é o carpinteiro José, pai de Jesus. Um homem pobre na matéria, mas de vulto moral imenso.

Que Fé gigantesca ele tinha, que sabendo de sua responsabilidade perante o mundo, enfrentou grandes perigos para que o Excelso Mestre viesse encarnar.

Que fibra tinha o carpinteiro em atravessar as estradas palestinas, guiando um velho jumento e protegendo uma frágil e assustada grávida pelas noites gélidas do canto mais pobre do Império Romano.

Certamente seu coração sangrava ao ver sua amada esposa passar necessidades e quantas vezes seus olhos insones varriam os campos desolados procurando bandidos ou perseguidores?

Quando Jesus nasceu, José sabia que Ele era a Boa Nova, não deu por encerrada sua missão por encerrada. Havia protegido Jesus e agora era hora de contribuir de outra forma: a formação Moral e Intelectual.

Embora Jesus fosse o Espírito mais evoluído a pisar na Terra, o Mestre Galileu precisava passar por tudo aquilo e era necessário para ser realmente um homem de sua época. Não havia concessões para o Cristo e José sabia disso. Em nenhum momento o velho carpinteiro procurou abrandar a Missão de Jesus. José, junto com Maria, foi a base – a estrutura Moral e Intelectual – para o Cristo de Deus.

Ensinaram” a Jesus a respeitar o próximo.

Ensinaram” Jesus a orar.

José “ensinou” um trabalho para Jesus, para honrar a comida à mesa.

José “ensinou” Jesus a ser um homem de Bem.

Todos nós, neste mundo de prova e expiações somos um pouco parecidos com o carpinteiro José. Com um cajado nas mãos, puxando um jumento com uma preciosa carga, procurando um proteger nossa família.

Como José, o Perseverante, seguramos nossas lágrimas para transmitir confiança à nossa frágil e assustada Maria, enquanto procuramos um lugar seguro onde nascerá o nosso Jesus.

Somos José, possuidor de uma Fé monumental, que fitava o céu não para pedir a Deus para abrandar a carga de nosso filho, mas sim pedindo que nosso tutelado tenha lucidez para vencer seus desafios da melhor forma possível.

Lembremos mais do carpinteiro José.

Que seja como José, aquele que é pai separado.

Que seja como José, aquele que é padrasto.

Que seja como José, aquele que tem de se “fundir” com a figura da mãe, o chamado “pãe”, uma tarefa árdua, mas de doce recompensa.

Que seja como José, aquele pai que por anos foi pai-tirano, pai-irmão ou pai-ausente, diminuindo seu débito ainda nesta encarnação.

Que seja como José, aquele homem que se deparar com uma criança desvalida, sendo PAI dela.







sábado, 18 de março de 2017

Degustação de obra (O Lavrador) - Livro Contos de Redenção, médium Thiago D. Trindade



O lavrador


“O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai vende tudo que tem e compra aquele campo.” Mateus 13: 40





O sol estava escaldante. O suor escorria por seu rosto marcado que teimava manter-se altivo. Um meio sorriso estava estampado em sua boca ressequida e seus olhos se voltavam para a terra seca que suas mãos teimavam em lavrar. Assim Josué seguia, dia após dia.

Naquela ocasião, porém, foi diferente. Um rapaz, guiando um grande carro importado, veio levantando uma grossa cortina de poeira que se erguia na direção do infinito. O motorista era o filho de um rico fazendeiro. Dirigindo de forma perigosa, Evandro bateu com o pneu do jipe em um buraco, fazendo-o estourar. Proferindo palavrões, o jovem saiu do ar refrigerado do automóvel e sentiu a força do sol em seu rosto pálido. Os óculos escuros pareciam impotentes ante à luz do astro rei.

De forma inexplicável, os olhos de Evandro pousaram na figura do velho Josué, que trabalhava a terra alheio a confusão do jovem.
- Ei velho! Gritou o jovem, de forma arrogante.

Lentamente Josué ergueu a cabeça. Sua audição já não era a mesma e parecia que tinha ouvido, ao longe, alguém falando. Divisou o jovem de roupas extravagantes gesticulando para ele. Ajeitando o chapéu no alta da cabeça manchada pelo sol, Josué deu um sorriso desprovido de dentes e acenou para o rapaz. Com passos largos, o lavrador chegou até o impertinente Evandro.
- Sou filho do senhor Luciano – disse o rapaz, arrogante – eu preciso que você troque o pneu do meu carro.
- Troco sim, moço – respondeu o velho – eu posso ajudar você, pela graça de Deus.

Com alguma dificuldade, Josué trocou o pneu. Evandro, porém, praguejava contra a lentidão do velho. O trabalho, por fim, foi feito. Retirando algumas notas do bolso, o jovem as estendeu para o idoso.
-Não posso aceitar, moço – retrucou o lavrador, balançando a cabeça com firmeza – não se cobra por ajudar alguém em precisão. Eu sei que se o moço estivesse bem, poderia ter trocado a roda sozinho.

Evandro amassou as notas. Sentia-se ultrajado. Como aquele velho miserável ousava recusar seu dinheiro e ainda chamá-lo de necessitado?
- Velho – resmungou o filho do fazendeiro – o sol fritou seus miolos. Estou lhe pagando por um serviço.
- Não se cobra pelo serviço de ajudar um filho de Deus – asseverou o outro – eu é que agradeço.

Evandro gargalhou. Definitivamente o ancião era louco.
- Está certo então, velhinho – disse o rapaz – vou embora. Fique nesse seu deserto, comendo pedras e poeira. Imagino que não saberia o que fazer com esse dinheiro.

Josué sorriu. Estendeu a mão duras e magra para o jovem. Evandro a tomou. Sentiu a força que ainda restava no velho.
- O que te sustenta, filho? Indagou o ancião.
- O quê? Devolveu Evandro, surpreso.
- O que faz você caminhar? Insistiu Josué.

Evandro não sabia o que responder. Que perguntas eram aquelas? Era seu pai quem o sustentava. Era Luciano quem sustentava todo seu modo de vida.
- Quem é você, velho, para se meter na minha vida? Disparou Evandro, num rompante.
- Ninguém – respondeu o velho baixando a cabeça – só gostaria de saber quem você é.
- Já não disse quem é meu pai?! Esbravejou o rapaz.
- Mas não disse quem você é – insistiu o lavrador – veja, eu sou Josué. Eu lavro a terra. Bendigo a Deus pelo meu trabalho e a riqueza que possuo.
- Riqueza?! – gargalhou Evandro – um campo seco?
- O que vê são pequenices, filho – asseverou Josué, com simplicidade – eu almejo uma grande riqueza. Para consegui-la, tenho de empregar os bens que Deus me emprestou...
- Você está gagá mesmo! Riu o outro.

Josué sorriu. Seus olhos, esbranquiçados pela catarata, se dirigiram para o carro de Evandro. O moço percebeu e alisou o capô do automóvel.
- Esse é um patrimônio, amigo – disse Evandro – meu carro é um bem que satisfaz. Isso é riqueza!
- Certo moço – continuou o outro – mas é uma riqueza pequena. Tudo o que nós pegamos, que nós vemos até, é pequeno! O verdadeiro tesouro nós sentimos!
- Balela! Negou o jovem.
- Tudo o que nos faz caminhar par a Verdade é justamente a vontade de amealhar a riqueza do sentimento nobre. E quem não é a Verdade senão Deus?
- Conversa de carola, vovô... Provocou o jovem rico.
- Conversar é pouco também – prosseguiu Josué animado – é necessário pegar na enxada e trabalhar na terra bruta. Encarar a terra teimosa. É um serviço que muitos pensam ser ingrato. Mas com paciência e carinho a terra se torna o berço de uma linda árvore que renderá doces frutos.
- Você acredita mesmo que vai tirar alguma coisa dessa terra esturricada? Indagou Evandro fitando o deserto.
- Acredito piamente nisso. – respondeu Josué com doçura quase palpável – a fé de meu coração me dá força para lavrar a terra seca.

Evandro contemplou o campo árido. Nuvens de poeira se levantavam. Sentiu pena do velho.
- Vovô, posso lhe arranjar um trabalho na fazenda do meu pai – o rapaz deu um meio sorriso – irá trabalhar menos e comer melhor com o salário que vai receber.
- Não obrigado – sorriu Josué, e aquele sorriso pareceu a Evandro estranhamente familiar – tenho meu torrão para lavrar.

O jovem fitou o idoso. Definitivamente, o agricultor era louco. Evandro entrou no carro.
- Gostaria que fizesse uma coisa por mim, moço. Disse o velho.
- O quê? Respondeu o rapaz com as mãos do volante.
- Ao se deitar, faça uma prece. Sentenciou Josué.

Evandro meneou a cabeça e ligou o motor. Ao chegar em casa, que encimava uma grande colina, viu seu pai, o poderoso fazendeiro Luciano, observando maliciosamente a filha da cozinheira.
- Tenho uma boa história pai. – disse Evandro caindo pesadamente no sofá – o pneu estou...

O rapaz narrou todo o acontecido. Luciano, coçando a grande barriga, riu ante a caracterização que ouvira do velho lavrador. Como o filho, o fazendeiro acreditou que o sol fritara os miolos do idoso. Mais tarde, ao dormir, após ingerir algumas cervejas e cigarros, Evandro olhou para o teto do aposento. Lembrou-se do pedido de Josué. Xingando o velho agricultor, Evandro sentou-se na cama opulenta.
- Tanta coisa para me pedir e ele me pede pra rezar?! Exclamou o rapaz, bufando.
- O que faz você caminhar? Subitamente essa pergunta voltou à mente de Evandro.

Baixando tão somente a cabeça desgrenhada, o filho do fazendeiro lembrou-se do velho e de uma imagem de Jesus que vira certa vez.
- Deus, me ajude! Exclamou o jovem.

No dia seguinte, Evandro entrou no carro e foi veloz para onde havia encontrado com o velho lavrador. Encontrou-o lá, do mesmo jeito que no dia anterior. Josué, ao vê-lo, levantou-se e acenou com o chapéu.
- É bom vê-lo. Disse o idoso.
- Velho, tive um sonho esquisito! – disparou Evandro – meu cérebro fritou ontem. Só pode ser!
- O que foi, moço? Indagou Josué, pondo o chapéu velho na cabeça manchada pelo sol.
- Não tive meus sonhos de hábito. – respondeu o outro – não sonhei com mulheres... ou ainda o sono sem sonhos...
- O que o senhor viu? Insistiu o lavrador.
- Esse lugar estava cheio de flores – prosseguiu o rapaz – árvores altas!
- Então o senhor compartilhou comigo o meu sonho – Josué abriu sua boca murcha e desprovida de dentes, num sorriso largo e estranhamente cheio de vida – minha esperança!

Evandro coçou a cabeça. Aquilo era estranho demais.
- Falou com seu pai do carro quebrado? Perguntou o velho fitando o possante veículo.
- Sim. – respondeu Evandro balançando a cabeça – ele riu.
- Quem não riria de pequenices assim, não é? Suspirou o ancião.
- Velho, sonhos são devaneios – anunciou Evandro, com fervor – só isso. Nada sobrevive a essa secura!
- Venha comigo. Disse Josué prontamente.

O lavrador guiou Evandro por entre touceiras secas de espinheiro. Chegaram a um local junto a um morro baixo. Ali havia um jovem cajueiro.
- Meu trabalho está rendendo e vemos a recompensa! – exclamou o velho – o senhor verá esse campo verde!
- Venha comigo para a fazenda. Disse Evandro, após observar lentamente para a vigorosa muda.
- Não obrigado. – respondeu Josué – irei lavrar essa terra. O senhor pode me ajudar.

Aquilo era absurdo para Evandro. Jamais ele pegara numa enxada ou qualquer ferramenta. No entanto, o jovem segurou a gasta companheira do agricultor.
- Ponha a lâmina da enxada na terra e imagine que você dá a ela a força que faz brotar as plantas. Tenha fé de que está recuperando essa terra para o serviço de Deus. Ensinou Josué com ar professoral.

Desajeitado, Evandro revolveu o solo. Era difícil fazer aquilo. As mãos logo doeram. As costas reclamaram e seu rosto ardeu com o sol implacável e o suor encharcou suas belas vestes.
- Chega. Disse Evandro com o corpo rígido e dolorido, com as mãos entorpecidas e prestes a serem tomadas por bolhas doloridas.
- O senhor lavrou a terra, moço. – disse Josué com ar satisfeito – caminhou. Deu esperança a essa terra.

Coberto de poeira, Evandro percebeu que sorria. O trecho que capinara era muito curto, mas fora o que fizera. Os olhos dos dois homens se encontraram.

De volta ao lar, Luciano estranhou a aparência do filho. Observando as mãos feridas de Evandro, o fazendeiro exasperou-se.
- Espero que a mulher tenha valido à pena. Resmungou Luciano.

Evandro fitou o pai. Por um momento viu no pai o que ele mesmo era. Incomodado com essa constatação, banhou-se e foi ao seu quarto. Sentia-se só, como nunca antes. Ainda parecia que o peso da enxada estava em suas mãos. O sol também era percebido pela sua pele queimada. Ao fechar os olhos, viu os campos do lavrador cheios de vida.

Adormeceu. Novamente, os campos do estranho agricultor estavam lá, porém estavam ainda mais repletos de vida do que antes.

Sobressaltado, Evandro despertou. Sentia o perfume do sonho, mas uma sensação de imperiosidade o incomodava. A imagem do velho não lhe saía da cabeça. Trocou de roupa e saiu, pouco antes dos galos anunciarem o raiar do dia. Nos primeiros raios de luz, o jovem chegou ao lugar onde havia encontrado com o lavrador pela primeira vez. Sabia que o velho chegava ao amanhecer. O sol chegou abrasador e nenhum sinal do agricultor. O coração batia descompassadamente no peito de Evandro, que, num rompante entrou no carro e saiu pelos campos. Iria encontrar o velho.

O carro jogou poeira para o céu por longo tempo, até que finalmente, quando o combustível estava prestes a acabar, Evandro divisou uma pequena casa de sapê. Era um casebre paupérrimo.
- Só pode ser ali! Gritou o rapaz.

Encostou o carro e irrompeu casa à dentro. Havia somente um cômodo na tapera. Josué estava deitado na cama de tábuas. Ao seu lado, seu chapéu e a enxada. O ancião abriu lentamente os olhos. Evidenciava uma respiração lenta e fraca.
- Você está doente? Indagou o rapaz se abaixo ao lado de Josué.
- Estou indo conferir a riqueza que tenho, moço. Respondeu o lavrador com um sorriso banguela.
- Não! Exclamou Evandro sentindo lágrimas brotarem em seus olhos.
- Como não? – retrucou o outro, ainda sorrindo – a morte é tão natural quanto o nascer do sol. Faz parte da vida, mocinho.

O corpo de Evandro tremia. Jamais se apegara a alguém antes. Parecia ao jovem que deveria ter aproveitado mais o tempo com aquele amigo que arranjara pela graça do destino e que agora se ia.
- Vivi muito, filho – disse Josué – é hora de conhecer outros campos. Gostei muito de conhecê-lo moço.
- Há alguém a quem chamar? Indagou Evandro às lágrimas.
- Minha esposa me aguarda e meus filhos mais velhos também. – respondeu o velho – o caçula ainda não está pronto...
- Irei buscá-lo! – bradou o rapaz – ele deve se despedir do pai!

- Para ele estou morto. – suspirou Josué – morto na carne e no espírito. Para mim ele ainda precisa de cuidado, o mesmo que devemos ter para com a terra. Deixe-o onde está.
- Nem sei o seu nome, mas gostaria que fosse meu avô. Disse Evandro beijando as mãos rijas e descarnadas do ancião.
- Meu nome é Josué Ambrósio. Respondeu o lavrador.

Evandro estacou. Aquele era o nome de seu finado avô, que morrera quando Luciano era pouco mais do que um menino. O velho morrera após a esposa, Luzia e os filhos mais velhos. Dois rapazes e uma moça. Fitando cuidadosamente o rosto marcado do lavrador, o rapaz encontrou similaridades com a face dura de Luciano.
- Você é meu avô! Exclamou Evandro.
- Então o ciclo se fecha. – sorriu Josué – bendito seja Deus! Senti um grande carinho por você, assim que o vi! Meu neto...
- Por quê? Volveu Evandro.
- Sem perguntas, meu neto. Retrucou Josué com a voz ainda mais fraca.

Os dois homens se olharam e sentiam um imenso júbilo dentro de seus corações.
- Ontem você lavrou o solo com afinco, meu neto. – disse Josué pondo o dedo ossudo no peito de Evandro – é hora de você lavrar seu coração. É você quem irá deixar os campos que Deus emprestou verdejantes!

Dizendo aquilo, Josué sorriu e morreu. Evandro não ficou desesperado, pois uma sensação de paz o tomou. Beijou a testa fria do avô recém encontrado e pegou a enxada que agora lhe pertencia. Cavou a cova de Josué próxima a casa de sapê e por fim, pôs uma simples cruz. Não sabia o que acontecera na família, mas isso não importava. Não odiava o pai, a quem amava.

De volta à casa, Evandro encontrou seu pai furioso. O velho fazendeiro bebia sôfregamente uma dose de pinga quando o rapaz entrou pela sala carregando a enxada.
- Agora traz as ferramentas dos empregados?! – rugiu Luciano – vou sumir com esse velho que está a lhe enfiar coisas idiotas em sua cabeça!
- O nome do velho era Josué Ambrósio, pai. – disparou Evandro – ele morreu hoje. Ele lhe amava muito e tinha esperança em você!

Luciano, estarrecido, deixou o copo cair no chão. Os olhos do fazendeiro se encheram de lágrimas, mas nenhuma delas rolou. Em silêncio, o filho de Josué foi até seu quarto e lá permaneceu.

Sentado na cozinha e com a enxada deitada sobre suas pernas, Evandro permaneceu até o dia seguinte. Sua cabeça girava, entorpecida, quando o peso da mão de Luciano o despertou definitivamente.
- Leve-me até onde meu pai está. – disse o fazendeiro com a voz embargada – por favor.

No carro de Luciano, pai e filho foram até onde se encontrava o casebre de Josué. Pesadamente, Luciano caiu de joelhos ante o túmulo do pai. Finalmente, lágrimas rolaram pelo rosto do implacável fazendeiro, molhando o esturricado solo que Josué tanto amara. Pedindo perdão, Luciano estava com o espírito alquebrado.

Os dias correram, por fim, e Luciano não mais se dedicava aos negócios. Caminhava pela enorme casa sem direção. Evandro também se sentia vazio. Às vezes voltava para os campos onde conhecera o avô e usava a velha enxada para arrancar as ervas daninhas que ameaçavam as mudinhas esquálidas que Josué plantara.

Certa vez, Evandro, sentado em sua cama, teve uma idéia. Com muita cautela, foi até seu pai, com quem não mais falara desde o reconhecimento do velho lavrador com avô e pai deles.
- Quer ir comigo ao campo do vô Josué? Perguntou Evandro com uma pontada de esperança.

Com um estremecimento Luciano recebeu o convite. O fazendeiro, após um tempo de hesitação, aceitou. Dentro do automóvel era apenas silêncio e ansiedade. Levavam sementes, mudas e adubos.

Chegando lá, Luciano não quis sair do carro. Em silêncio, Evandro pegou as ferramentas e insumos e começou a trabalhar.
- Mamãe morreu de tuberculose – disse Luciano, com a voz ofegante – papai sentira muito a perda dela. Talvez mais do que todos nós juntos. Getúlio, o mais velho, ficou à frente dos negócios das cabras, já que era o único meio de se conseguir dinheiro. Não tínhamos recursos alguma para plantar ou criar algo que não fosse palma e cabra. Mas Getúlio era péssimo administrador e criou dívidas enormes.- com um suspiro o fazendeiro ergueu seus olhos avermelhados para o céu azul – era ele o mais velho e tínhamos que segui-lo, e mesmo que ele gastasse toda a mixaria que as cabras rendiam no cabaré, devíamos baixar a cabeça para ele.

Evandro, sem parar de carpir o solo, apenas ouvia.
- Papai nada fez. – continuou o fazendeiro – acho que ele estava tão absorto pela morte da mamãe que ele simplesmente não sabia o que se passava. Otávio, mais velho do que eu, se rebelou contra Getúlio e eu o segui. Maura, pouco mais nova que Otávio se alinhara com Getúlio. – os olhos do filho de Josué se voltaram para as mãos fechadas, que tremiam violentamente – houve luta. Getúlio era forte. Muito forte. Quebrou o nariz de Otávio com um único soco e me arremessou para longe. Getúlio começou a chutar Otávio e eu corri para pegar a arma de papai. Quando eu apontei o revólver para meu irmão mais velho pedi que ele fosse embora. Getúlio apenas riu! Eu tinha apenas treze anos. Ele me xingou. Disse que iria me surrar até ficar aleijado – o rosto de Luciano ficou pétreo e Evandro, que tinha parado de capinar, fechou os olhos – eu atirei. A bala atravessou Getúlio e pegou a Maura. Otávio gritava muito. Ele tirou a arma de minha mão e correu para ver se Getúlio e Maura estavam vivos. Quando Otávio se aproximou, Getúlio o surpreendeu e o desarmou. Deu um tiro na cabeça do irmão achando que era eu! Quando papai chegou da casa da tia Zuleica encontrou os filhos mortos e eu sentado no chão da sala. Ele olhou para mim. Aqueles olhos! Ele soube o que acontecera! Papai pegou a arma e enterrou os filhos no quintal junto de mamãe. Não me disse uma única palavra. Apenas me beijou na testa e desapareceu nos campos ermos. Tia Zuleica veio e disse que ia cuidar de mim. Ela falou que a polícia procurava o papai pelo crime acontecido. Eu cresci e tornei-me o que sou hoje. Um traste!
- Você é meu pai! – exclamou Evandro – amo você!

Luciano fitou o filho. Desde que Eleonora morrera, no acidente de carro, jamais sorrira. O fazendeiro abriu a porta do automóvel e fitou os campos secos. A passos largos chegou até o filho e lhe tomou a enxada.
- Você está fazendo errado. – resmungou Luciano – vou mostrar como se lavra a terra, meu filho.









As provas mais difíceis são aquelas que afetam o coração. Existem aqueles que suportam com coragem a miséria e as privações materiais, mas abatêm-se ao peso das amarguras domésticas, atormentados pela ingratidão dos seus. Que angústia terrível! Nesses casos, mais que o conhecimento das causas do mal, a certeza de que não existem sofrimentos eternos é que ajuda a reerguer a coragem moral, porque Deus não quer que Sua criatura sofra para sempre.


Fragmento retirado do Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XIV,A ingratidão dos filhos e os laços de família. Santo Agostinho. Paris, 1862. Item 9.


































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